5.7.05

Short short story 2

Talvez, talvez... Talvez, porque não? Escondido debaixo da capa da indiferença, mas a verdade é que não me sinto indiferente. Um, dois, três cigarros fumados... O cinzeiro enche-se rapidamente. E eu não sei. Não sei, porque simplesmente não sei, porque preciso que tudo me seja explicado, definido, enumerado. XY. Preciso de ter as coisas claras, preciso de certezas. Tenho muito medo de me magoar. Mas ainda assim, houve a explosão, o grito. A paixão. Apaixonei-me como um pecador que procura redenção, como se no corredor da morte me tivesse de repente convertido. E vou para o Paraíso. Ou não vou. Mas vou. Porque "não posso fazer nada", mas posso. O quê, não sei. Cansei-me. Cansei-me de dizer que não posso fazer nada. Cansei-me de ver todos os meus sonhos fugirem à frente dos meus olhos. E não te vou deixar fugir. E não te vou deixar. Ou talvez vá. A paixão é uma roleta russa, dizes-me tu. Pois é. Mas nada te garante que eu não seja aquela bala perdida. Também tenho sonhos, também tenho ambições. Posso ser imperfeito, sei que sou. Quem não o é? Quarto cigarro, as minhas mãos tremem. O dia acaba. "O que importa é o que sinto por ti". E o que sentes por mim? Eu não sei. A sério que não sei. XY. Sou assim. Tu própria o disseste. Talvez te devesse telefonar. Talvez. Mas tenho medo. Tenho medo de tudo. E apaixonei-me. Como quem procura fugir do medo. Como quem procura encarar. Encarar tudo. Tudo aquilo de que tenho medo. E, se não quero ter medo, talvez te devesse telefonar. E dir-te-ia, "Tenho medo". E dir-te-ia, "Não consigo sair da cama porque tenho medo. Porque não quero encarar. Tudo. Não quero encarar tudo sem ti". E refugio-me. As coisas que conheço bem. Quinto cigarro, este com café. Conduzo. Ponho música a tocar. Give me your heart and your soul. Estou sentado à frente de um computador a dizer o quanto preciso de ti. Não estou sentado à tua frente. Porque escrever é bem mais fácil que falar. Porque refugiar-me é bem mais fácil que ter medo. De me magoar. Mas estou cansado. A sério que estou cansado. O que sentes por mim? E, às vezes, pergunto-me o que podíamos ser. O que podia acontecer. E irá acontecer? Talvez não, mas não quero dizer que não posso fazer nada. Porque posso. Não sei o quê, mas posso. Não sei o quê, porque nunca ninguém me disse e eu preciso de tudo explicado. Analizado. Dissecado. Não sei o quê, mas tenho urgentemente de descobrir. Porque estou cansado. Muito cansado.

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