11.1.06

Ilha de mim

Por alguma razão, sempre achei que estava sozinho na ilha. Por alguma razão, sempre achei que aquele ciclo em que o sol aparecia de um lado e desaparecia do outro se repetiria até à exaustão, que a lua seguiria o seu ritmo normal, nova, crescente, cheia, minguante, até que caísse do céu. Por alguma razão sempre achei que ia acabar naquela praia, passando os dias todos da mesma forma e que, quando finalmente a minha vez tivesse chegado, os meus ossos fossem comidos pela areia e esquecidos, enquanto a minha carne serviria de farta refeição a um grupo de vermes sortudos que por acaso ali estivesse na altura.
Confesso que não me lembro de ter chegado. Não era que tivesse um sentido de me ter esquecido do que é que tinha acontecido antes. Não estava naquele estado amnésico em que uma pessoa se tenta recordar desesperadamente do antes, porque, muito honestamente, não conseguia sentir que houvesse um antes, não conseguia sentir que houvesse mais alguma coisa para trás, não conseguia sentir que eu tivesse um passado e, se tinha, não era certamente nada que valesse a pena recordar. Era como se já tivesse nascido ali, naquele pedaço entre o mar e meia dúzia de árvores que se viam ao fundo, como se tivesse estado eternamente sentado a olhar para as estrelas, o sol, as ondulações do mar e tudo o que se via naquele pedaço inóspito de terra. Pelo menos, até ao dia em que resolvi levantar-me e ver o resto da ilha.