Short short story 3 - Se não conseguires, terei de me repensar (outra vez)
"Como é que começava, lembras-te?", "Hm... Qualquer coisa acerca de uma ponte, creio eu". Ela tentava recordar-se de uma canção qualquer que não ouvia há muito tempo e que eu tinha apanhado, por mero acaso, no rádio do carro enquanto lutava por entre o trânsito da hora de ponta. "É pá, porra, se ao menos te lembrasses de nome", "Mas não me lembro, desculpa". Ela encolheu os ombros, "Deixa, não é um caso de vida ou morte". Sentou-se no sofá e encostou a cabeça ao meu ombro. "O que é que estás a ver?", "Estou só a passar canais", disse eu enquanto carregava nos botões do telecomando da televisão. "Estás com uma daquelas disposições outra vez, não estás?", "Quais disposições?", "Aquelas que tu costumas ter". Desliguei o maldito aparelho para a encarar, "Não percebo", "Tu costumas ter umas disposições", "Sim, mas...", "Ficas aí, a remoer qualquer coisa só para ti", "Não estou a remoer nada", "Estás, sim", "O quê?", "Não sei, não me contas", "Não tenho nada para contar" e era a verdade, a ela nunca lhe dizia menos que a verdade, ainda que ela nem sempre acreditasse nisso, estava ligeiramente absorto, reconheço, mas não tinha uma "disposição". "Conta-me lá, então, acerca dessas minhas disposições", ela encostou-se mais a mim e eu pus-lhe o braço à volta dos ombros, "Oh... Às vezes, ficas muito pensativo... Como se tivesses algum segredo que não quisesses partilhar...", "Não tenho segredos nenhuns. Especialmente, não para ti", ela torceu os lábios, "Mentes", "Não minto. Nunca te mentiria", "Estás-me a mentir agora mesmo", como disse, ela nem sempre acreditava nisso. "Não sei...", "Eu sei", "Sabes?", "Sei. Sei que há coisas em ti que eu ainda não conheço, sei que há muita coisa que tu ainda não me contaste. Sei que há coisas que devem ser muito difíceis de dizer. Sei que provavelmente será a mesma coisa na outra direcção, ainda que não consiga imaginar o que possa eu não te ter dito acerca de mim ainda", "Talvez. Talvez seja isso, talvez seja só eu, mas...", inspirei um pouco enquanto pensava no que lhe ia dizer a seguir, "Mas...?", "Mas ao menos não encolhes os ombros, ao menos tentas saber. E é por isso que te amo". Ela sorriu. Encostou-se ainda mais um pouco, beijou-me a bochecha e deixou-se estar.
Era meio dia quando acordei. Ao meu lado, os longos cabelos pretos dela estendidos na almofada. Lembrei-me da conversa que tínhamos tido no dia anterior. Ela tinha toda a razão. Mas ela nunca podia saber que o homem que ela amava não era o verdadeiro eu. Ela nunca podia saber das coisas que eu tinha deixado para trás. Ela nunca podia saber que eu por dentro era vulgar, falhado, inseguro. Ela nunca podia saber quem se escondia por trás da máscara. E era nisso que eu pensava quando às vezes não a ouvia, quando às vezes me recolhia no meu pequeno mundo que ela por certo odiaria. E ela nunca podia saber. Porque também me odiaria. Porque nunca mais a veria assim, olhos fechados, cabelos desalinhavados, com um sorriso nos lábios, enquanto tinha sonhos que me contaria quando acordasse. E isso eu não podia nunca suportar.
Abracei-a. E se não me lembrava de como começava a música, lembrava-me do refrão. Havia um obstáculo no caminho.
Etiquetas: short short story

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