27.6.06

Enquanto espreito...

...ela, o pequeno demónio, joga as suas cartas
Mãos suadas, cabelo vermelho
"Vamos sair um dia?"
"Pode ser", digo-lhe eu, vagamente desinteressado
Que não posso jogar as minhas cartas todas de uma vez
(Mas ela já ganha
Claramente)
"Mas só de madrugada"
"O que tem de tão especial?"
"Enfrento fogos e sustos até então"
"Veremos"
Passa a língua pelos lábios
E sabe que já me ganhou

18.6.06

Ser eu

Recuso. Recuso ser assim, recuso ser de outra maneira qualquer. Recuso ser das manhãs, das tardes ou das noites. Recuso ser do almoço ou do jantar. Recuso a vida. Recuso a morte. Recuso a alternativa. Recuso o mainstream. Recuso o sul. Recuso o norte. Recuso todas as consequências e todas as verdades. Recuso o capitalismo e o comunismo. Recuso a saúde e recuso a doença. Recuso o romantismo, o idealismo, o existencialismo, o naturalismo, o realismo. Recuso qualquer ismo. Recuso o sismo. Recuso os fatos, recuso os farrapos. Recuso a roupa em geral e também me recuso a andar nu. Recuso a escrita e a palavra, recuso as ideias e os significados e recuso a estupidez, a ignorância e a insensatez. Recuso ser português, recuso ser algarvio, recuso ser europeu. E recuso-me também a ser um cidadão do mundo. Recuso o ocidente e também o oriente. Recuso as religiões todas do mundo e mais o ateísmo, que foi criado pelo diabo. Recuso o dinheiro, recuso a pobreza. Recuso os góticos, os freaks, os punks, os betos, os rappers, os rockers e os hipsters. Recuso a new age e recuso o consumismo. Recuso as tretas vegetarianas e recuso os anúncios a detergentes de pessoas de sorrisos brancos. Recuso andar na rua, recuso-me a ficar em casa. Recuso a bebida, o tabaco, o café e todas as outras drogas e recuso-me a viver sem elas. Recuso o trabalho e recuso-me a ser desocupado. Recuso o campo e a cidade. Recuso a chuva, recuso o vento, recuso o sol. Recuso-me a que haja qualquer espécie de tempo. Recuso as estações. Recuso os carros e recuso-me a andar a pé. E já agora, recuso-me também a andar de transportes públicos, de bicicleta, de moto ou de qualquer outra merda que tenham inventado como meio de locomoção. E também me recuso a ficar parado. Recuso as putas e os chulos, recuso o sexo em geral e recuso-me a não o ter. Recuso comer e também recuso morrer à fome. Recuso-me a ter um corpo e recuso-me a não o ter. Recuso.

Recuso ser tudo. Recuso não ser nada. Recuso-me a tudo o que não seja ser eu.

13.6.06

The dawn

This is where I truly belong
Wasted and bruised at the dawn
A cigarrete hanging from my lips
Fingers burned and alcohol treats
She's as numb as she could be
Yet, she could care less for me
Her hair in a disarray
The sun peeks, she blurts "I'm OK"

Isn't there a soul in this global scam
That picks up the phone at 4 am?
Isn't there a world under these lights
Filled with promises and fist fights?
Aren't there stories of my own kind
Melodies of dope and wine?

This air is filled with all sorts of voice
Some are high, some paranoid
They say they want to go everywhere
We have a few hours to not really care
The bus went by, we're calling faces
And foreshadowing numerous disgraces
She sleeps on my shoulder, it's full morning
The hours killed, no more warnings

Isn't there a way in this hellbent maze
To shortcut me to the daze?
Isn't there a stop in the way around
Where you just go down and down?
And isn't there a body to keep me in check?
To send my wail to white and back?

8.6.06

All I own

On top of the world you get nothing done
Talk is cold and burns like the sun
Can't you see these skies are breaking?
Because the top of the world is where I'm from
The back of the class is where I was
Keeping quiet, playing dumb
Can't you see these skies are breaking?
Because the back of the class is where I'm from
And I am one

I'm on a race and it's killing time
I don't need yours, I'll keep it with mine
Can't you see these skies are breaking?
Because I'm on a race and I'm doing fine
Thank you
Two of a kind and no one home
I'm in a crowd and I'm still alone
Can't you see these skies are breaking?
Because one of a kind is all I own
I am one

I am out of the blue and into the void
I wanna try but I get annoyed
Can't you see these skies are breaking?
Because I'm out of the gloom and into the void
I am one

On top of the world you get nothing done

- Placebo, One of a Kind

2.6.06

About a girl

Não sei que se passou contigo
Nunca foste assim tão ingénua
E agora o chão deixou que caísses nele
Não compreendo
As ladaínhas e os antibióticos talvez não tenham funcionado
Ou talvez no fundo do coração, tudo o que quisesses
Era alguém que te amasse verdadeiramente
E agora ele existe
Mas com as suas mãos pequenas e as suas frases mal articuladas
Talvez não fosse quem imaginasses
(E deixa-te estar calada
Ele não precisa de saber
Nunca precisará de saber
Das noites em que a tua mente explodiu
Eu estava lá
E não te preocupes, também nunca lhe direi nada)
Agora atiraram-te às feras
Meteram-te no pedestal ignorado
E certificar-se-ão que, ainda assim, cairás dele
Agora puxaram-te o tapete de debaixo dos pés
E tu responderás com o teu eterno sorriso
Feito de pureza manchada e sedativos
Re-escrito em tumultuosas linhas brancas
E medo
(Já agora, não te esqueças de ligar
Para aquele exercício inconsequente de palavras
Para que me lembres de que, entre o muco e o sangue
Todos nós desabamos de vez em quando
Ou para sempre)