Short short story 1
Cheguei à praia por volta das 15.30. Já lá estavam todos. Eu, sempre o eterno atrasado. "Boa tarde", murmurei eu, "Boa tarde. Trouxeste o rádio?", "Trouxe. E uns CDs também". Estendi a toalha na areia, puxei de um cigarro. "Oh, não vais fumar aqui. Dá cá isso", e tirou-me o cigarro da boca, "Rita, devolve-me o cigarro", "Não, agora não fumas", "Foda-se, Rita, devolve-me o cigarro". O tabaco era a única coisa familiar para mim no meio daquilo tudo. Após quatro anos, não conhecia ainda aquelas pessoas, não sabia quem elas eram, não sabia sequer porque estava eu ali. E era isto a nossa festa de despedida. Porque agora íamos ser adultos.
Rita devolveu-me o cigarro. "Vamos tirar uma fotografia?", "Vamos. Vá, juntem-se todos". Fiquei para sempre imortalizado com um cigarro na boca e uns olhos de sono, que posso agradecer às insónias que não me deixaram dormir até às seis da manhã. "A tua namorada, João?", "Ficou em casa. Ainda tem mais um exame". A minha namorada... Depois de dois anos de namoro, sabia que podia sempre contar com ela, é certo. Mas partir esta parede de vidro? Nem pensar. As voltas que demos, mas tudo acaba por vir dar ao mesmo sítio: a linguagem é uma barreira demasiado grande.
"Não queres vir à água?", "Não, eu fico aqui a ouvir música". E, no meio disto tudo, não podia deixar de me sentir vazio. Oh, a suprema felicidade de chegar a casa às seis da tarde, ter os putos em casa e a mulher a fazer o jantar. O êxtase de passar à noite em frente à TV a ver um concurso em que se dão FABULOSOS PRÉMIOS. Saber exactamente como vai ser o dia a seguir. Negar o facto de sermos zombies. Repetirmos a nós próprios que só estamos a assegurar um futuro melhor que no futuro, sim, no futuro, aí assim, iremos gozar a vida. Repetirmos isto todos os dias, todas as horas, todos os minutos, como um mantra. E era isso que me assustava. Em todos eles, saber-lhes aquele sonho, sabê-los assim, correndo vertiginosamente pela vida, sabendo que nunca hão de olhar para trás, sabendo que quando quiserem travar já será tarde mais pois o precipício, esse, sempre esteve à espera deles.
"Onde é que vais?", "Vou-me embora", "Não ias jantar com a gente?", "Estou-me a sentir um bocado mal disposto", "Mas não vais jantar", "Não, desculpem", "Vá lá, é o último dia", "Não me sinto em condições. Vão e divirtam-se por mim, está bem?". As palavras... As palavras são uma merda.
Enquanto abria a porta do carro, olhei uma última vez para trás, uma última vez para eles, mas não mais. Enquanto acelerava pela estrada, pensava em como era fácil deixar o passado velho para trás. E deixá-lo para sempre. Abri a janela, acendi outro cigarro. E sorri. Pela primeira vez naquele dia, sorri.
Etiquetas: short short story

1 Comments:
bom, vou-me atrever a ser a primeira a comentar...
language can be a good bridge.
(cat)
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