24.4.07

Short short story 5 - Como desmoronar um castelo de cartas

"Tu olhaste para ela", "Não olhei", "Olhaste, sim, eu vi a maneira como tu olhaste. E estava tudo bem até aí, juro-te. Mas a maneira como olhaste para ela...", "Como é que eu olhei para ela?", encolheu os ombros, "Olhaste para ela porque ela estava de boxers", "Não, olhei para ela porque me disseste que vocês andavam picadas. Foi só isso", "Oh, está bem. Eu não acredito em homens. Vamos ser só amigos, está bem?". Tirou a roupa, vestiu o pijama e deu uma volta na cama, virando as costas para mim. Deitei-me encostado a ela. "Estás chateada?", "Não, não estou chateada. Conhecemo-nos há três dias. Não tenho nada para estar chateada", e é verdade, conhecíamo-nos há três dias e, no entanto... É estranho como podemos ficar afectados por coisas que acontecem com pessoas que conhecemos há três dias (mas que parece que conhecemos há anos).
Dormimos. O álcool fez os seus efeitos e adormecemos relativamente depressa. Acordei cerca de duas horas depois. Ela não conseguia dormir sem ter a televisão e uma luz acesa e eu ouvi um diálogo qualquer. Um filme sobre imperadores romanos passava na caixa. Ela continuava adormecida.
E a raiva, a tristeza, tudo aquilo que eu não queria que acontecesse invadiu-me. Levantei-me, saí do conforto daquela cama, do corpo quente dela. Vesti-me, beijei-lhe a face e saí de casa. O meu carro estava estacionado ali perto. Sentado ao volante, as lágrimas caíam-me pela cara abaixo. Deixei-lhe o equivalente moderno do bilhetinho à mesa de cabeceira - mandei-lhe uma mensagem.
E assim se desmoronou aquele esplêndido castelo de cartas.

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7.7.06

Short short story 4 - Um mínimo de decência

Não sei se já te apercebeste, mas assim não vamos a lado nenhum. Não sei se já te apercebeste, mas os traços que se desenham nesta cara ficam cada dia mais vincados, mais profundos, mais difíceis de apagar. Agora, a ideia de que bastavam meia dúzia de moedas e uma canção foi pela janela fora. Agora, aqueles pequenos prazeres que retiravas daqueles jogos que jogávamos acabaram. Agora, a espiral corre num único sentido e eu tenho olhos que abarcam o mundo inteiro. Agora, mostro-me, revelo-me, descubro-me. Agora, não tenho medo. E, se já te esqueceste, eu lembro-te. Se nunca te apercebeste, deixa-me reavivar-te a memória. Que já me vesti de amarelo, azul, vermelho-sangue, verde, preto e branco por ti. Que já fui palhaço, aviador, pedreiro, dançarino, poeta e junkie por ti. Que já escalei uma montanha, já mergulhei no mar, já me perdi no deserto por ti. Que deixei de fumar, deixei de beber, deixei de foder por ti. Que já pintei a casa, lavei a roupa, decorei o jardim e cozinhei o jantar por ti. E se tens um mínimo de decoro, se na tua alma há um mínimo de respeito pelo resto do mundo, se tiveres um mínimo de civismo nesse teu corpo, se tiveres um mínimo de decência, aquele mínimo que existe entre duas pessoas, então o mínimo que podias fazer, o mínimo essencial que é exigido de ti, o mínimo dos mínimos de que já te devias ter apercebido é que, ao menos (e não te peço mais nada), me reveles o teu nome.

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21.5.06

Short short story 3 - Se não conseguires, terei de me repensar (outra vez)

"Como é que começava, lembras-te?", "Hm... Qualquer coisa acerca de uma ponte, creio eu". Ela tentava recordar-se de uma canção qualquer que não ouvia há muito tempo e que eu tinha apanhado, por mero acaso, no rádio do carro enquanto lutava por entre o trânsito da hora de ponta. "É pá, porra, se ao menos te lembrasses de nome", "Mas não me lembro, desculpa". Ela encolheu os ombros, "Deixa, não é um caso de vida ou morte". Sentou-se no sofá e encostou a cabeça ao meu ombro. "O que é que estás a ver?", "Estou só a passar canais", disse eu enquanto carregava nos botões do telecomando da televisão. "Estás com uma daquelas disposições outra vez, não estás?", "Quais disposições?", "Aquelas que tu costumas ter". Desliguei o maldito aparelho para a encarar, "Não percebo", "Tu costumas ter umas disposições", "Sim, mas...", "Ficas aí, a remoer qualquer coisa só para ti", "Não estou a remoer nada", "Estás, sim", "O quê?", "Não sei, não me contas", "Não tenho nada para contar" e era a verdade, a ela nunca lhe dizia menos que a verdade, ainda que ela nem sempre acreditasse nisso, estava ligeiramente absorto, reconheço, mas não tinha uma "disposição". "Conta-me lá, então, acerca dessas minhas disposições", ela encostou-se mais a mim e eu pus-lhe o braço à volta dos ombros, "Oh... Às vezes, ficas muito pensativo... Como se tivesses algum segredo que não quisesses partilhar...", "Não tenho segredos nenhuns. Especialmente, não para ti", ela torceu os lábios, "Mentes", "Não minto. Nunca te mentiria", "Estás-me a mentir agora mesmo", como disse, ela nem sempre acreditava nisso. "Não sei...", "Eu sei", "Sabes?", "Sei. Sei que há coisas em ti que eu ainda não conheço, sei que há muita coisa que tu ainda não me contaste. Sei que há coisas que devem ser muito difíceis de dizer. Sei que provavelmente será a mesma coisa na outra direcção, ainda que não consiga imaginar o que possa eu não te ter dito acerca de mim ainda", "Talvez. Talvez seja isso, talvez seja só eu, mas...", inspirei um pouco enquanto pensava no que lhe ia dizer a seguir, "Mas...?", "Mas ao menos não encolhes os ombros, ao menos tentas saber. E é por isso que te amo". Ela sorriu. Encostou-se ainda mais um pouco, beijou-me a bochecha e deixou-se estar.

Era meio dia quando acordei. Ao meu lado, os longos cabelos pretos dela estendidos na almofada. Lembrei-me da conversa que tínhamos tido no dia anterior. Ela tinha toda a razão. Mas ela nunca podia saber que o homem que ela amava não era o verdadeiro eu. Ela nunca podia saber das coisas que eu tinha deixado para trás. Ela nunca podia saber que eu por dentro era vulgar, falhado, inseguro. Ela nunca podia saber quem se escondia por trás da máscara. E era nisso que eu pensava quando às vezes não a ouvia, quando às vezes me recolhia no meu pequeno mundo que ela por certo odiaria. E ela nunca podia saber. Porque também me odiaria. Porque nunca mais a veria assim, olhos fechados, cabelos desalinhavados, com um sorriso nos lábios, enquanto tinha sonhos que me contaria quando acordasse. E isso eu não podia nunca suportar.
Abracei-a. E se não me lembrava de como começava a música, lembrava-me do refrão. Havia um obstáculo no caminho.

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5.7.05

Short short story 2

Talvez, talvez... Talvez, porque não? Escondido debaixo da capa da indiferença, mas a verdade é que não me sinto indiferente. Um, dois, três cigarros fumados... O cinzeiro enche-se rapidamente. E eu não sei. Não sei, porque simplesmente não sei, porque preciso que tudo me seja explicado, definido, enumerado. XY. Preciso de ter as coisas claras, preciso de certezas. Tenho muito medo de me magoar. Mas ainda assim, houve a explosão, o grito. A paixão. Apaixonei-me como um pecador que procura redenção, como se no corredor da morte me tivesse de repente convertido. E vou para o Paraíso. Ou não vou. Mas vou. Porque "não posso fazer nada", mas posso. O quê, não sei. Cansei-me. Cansei-me de dizer que não posso fazer nada. Cansei-me de ver todos os meus sonhos fugirem à frente dos meus olhos. E não te vou deixar fugir. E não te vou deixar. Ou talvez vá. A paixão é uma roleta russa, dizes-me tu. Pois é. Mas nada te garante que eu não seja aquela bala perdida. Também tenho sonhos, também tenho ambições. Posso ser imperfeito, sei que sou. Quem não o é? Quarto cigarro, as minhas mãos tremem. O dia acaba. "O que importa é o que sinto por ti". E o que sentes por mim? Eu não sei. A sério que não sei. XY. Sou assim. Tu própria o disseste. Talvez te devesse telefonar. Talvez. Mas tenho medo. Tenho medo de tudo. E apaixonei-me. Como quem procura fugir do medo. Como quem procura encarar. Encarar tudo. Tudo aquilo de que tenho medo. E, se não quero ter medo, talvez te devesse telefonar. E dir-te-ia, "Tenho medo". E dir-te-ia, "Não consigo sair da cama porque tenho medo. Porque não quero encarar. Tudo. Não quero encarar tudo sem ti". E refugio-me. As coisas que conheço bem. Quinto cigarro, este com café. Conduzo. Ponho música a tocar. Give me your heart and your soul. Estou sentado à frente de um computador a dizer o quanto preciso de ti. Não estou sentado à tua frente. Porque escrever é bem mais fácil que falar. Porque refugiar-me é bem mais fácil que ter medo. De me magoar. Mas estou cansado. A sério que estou cansado. O que sentes por mim? E, às vezes, pergunto-me o que podíamos ser. O que podia acontecer. E irá acontecer? Talvez não, mas não quero dizer que não posso fazer nada. Porque posso. Não sei o quê, mas posso. Não sei o quê, porque nunca ninguém me disse e eu preciso de tudo explicado. Analizado. Dissecado. Não sei o quê, mas tenho urgentemente de descobrir. Porque estou cansado. Muito cansado.

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26.6.04

Short short story 1

Cheguei à praia por volta das 15.30. Já lá estavam todos. Eu, sempre o eterno atrasado. "Boa tarde", murmurei eu, "Boa tarde. Trouxeste o rádio?", "Trouxe. E uns CDs também". Estendi a toalha na areia, puxei de um cigarro. "Oh, não vais fumar aqui. Dá cá isso", e tirou-me o cigarro da boca, "Rita, devolve-me o cigarro", "Não, agora não fumas", "Foda-se, Rita, devolve-me o cigarro". O tabaco era a única coisa familiar para mim no meio daquilo tudo. Após quatro anos, não conhecia ainda aquelas pessoas, não sabia quem elas eram, não sabia sequer porque estava eu ali. E era isto a nossa festa de despedida. Porque agora íamos ser adultos.
Rita devolveu-me o cigarro. "Vamos tirar uma fotografia?", "Vamos. Vá, juntem-se todos". Fiquei para sempre imortalizado com um cigarro na boca e uns olhos de sono, que posso agradecer às insónias que não me deixaram dormir até às seis da manhã. "A tua namorada, João?", "Ficou em casa. Ainda tem mais um exame". A minha namorada... Depois de dois anos de namoro, sabia que podia sempre contar com ela, é certo. Mas partir esta parede de vidro? Nem pensar. As voltas que demos, mas tudo acaba por vir dar ao mesmo sítio: a linguagem é uma barreira demasiado grande.
"Não queres vir à água?", "Não, eu fico aqui a ouvir música". E, no meio disto tudo, não podia deixar de me sentir vazio. Oh, a suprema felicidade de chegar a casa às seis da tarde, ter os putos em casa e a mulher a fazer o jantar. O êxtase de passar à noite em frente à TV a ver um concurso em que se dão FABULOSOS PRÉMIOS. Saber exactamente como vai ser o dia a seguir. Negar o facto de sermos zombies. Repetirmos a nós próprios que só estamos a assegurar um futuro melhor que no futuro, sim, no futuro, aí assim, iremos gozar a vida. Repetirmos isto todos os dias, todas as horas, todos os minutos, como um mantra. E era isso que me assustava. Em todos eles, saber-lhes aquele sonho, sabê-los assim, correndo vertiginosamente pela vida, sabendo que nunca hão de olhar para trás, sabendo que quando quiserem travar já será tarde mais pois o precipício, esse, sempre esteve à espera deles.
"Onde é que vais?", "Vou-me embora", "Não ias jantar com a gente?", "Estou-me a sentir um bocado mal disposto", "Mas não vais jantar", "Não, desculpem", "Vá lá, é o último dia", "Não me sinto em condições. Vão e divirtam-se por mim, está bem?". As palavras... As palavras são uma merda.
Enquanto abria a porta do carro, olhei uma última vez para trás, uma última vez para eles, mas não mais. Enquanto acelerava pela estrada, pensava em como era fácil deixar o passado velho para trás. E deixá-lo para sempre. Abri a janela, acendi outro cigarro. E sorri. Pela primeira vez naquele dia, sorri.

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