Short short story 4 - Um mínimo de decência
Não sei se já te apercebeste, mas assim não vamos a lado nenhum. Não sei se já te apercebeste, mas os traços que se desenham nesta cara ficam cada dia mais vincados, mais profundos, mais difíceis de apagar. Agora, a ideia de que bastavam meia dúzia de moedas e uma canção foi pela janela fora. Agora, aqueles pequenos prazeres que retiravas daqueles jogos que jogávamos acabaram. Agora, a espiral corre num único sentido e eu tenho olhos que abarcam o mundo inteiro. Agora, mostro-me, revelo-me, descubro-me. Agora, não tenho medo. E, se já te esqueceste, eu lembro-te. Se nunca te apercebeste, deixa-me reavivar-te a memória. Que já me vesti de amarelo, azul, vermelho-sangue, verde, preto e branco por ti. Que já fui palhaço, aviador, pedreiro, dançarino, poeta e junkie por ti. Que já escalei uma montanha, já mergulhei no mar, já me perdi no deserto por ti. Que deixei de fumar, deixei de beber, deixei de foder por ti. Que já pintei a casa, lavei a roupa, decorei o jardim e cozinhei o jantar por ti. E se tens um mínimo de decoro, se na tua alma há um mínimo de respeito pelo resto do mundo, se tiveres um mínimo de civismo nesse teu corpo, se tiveres um mínimo de decência, aquele mínimo que existe entre duas pessoas, então o mínimo que podias fazer, o mínimo essencial que é exigido de ti, o mínimo dos mínimos de que já te devias ter apercebido é que, ao menos (e não te peço mais nada), me reveles o teu nome.
Etiquetas: short short story

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