Short short story 5 - Como desmoronar um castelo de cartas
"Tu olhaste para ela", "Não olhei", "Olhaste, sim, eu vi a maneira como tu olhaste. E estava tudo bem até aí, juro-te. Mas a maneira como olhaste para ela...", "Como é que eu olhei para ela?", encolheu os ombros, "Olhaste para ela porque ela estava de boxers", "Não, olhei para ela porque me disseste que vocês andavam picadas. Foi só isso", "Oh, está bem. Eu não acredito em homens. Vamos ser só amigos, está bem?". Tirou a roupa, vestiu o pijama e deu uma volta na cama, virando as costas para mim. Deitei-me encostado a ela. "Estás chateada?", "Não, não estou chateada. Conhecemo-nos há três dias. Não tenho nada para estar chateada", e é verdade, conhecíamo-nos há três dias e, no entanto... É estranho como podemos ficar afectados por coisas que acontecem com pessoas que conhecemos há três dias (mas que parece que conhecemos há anos).
Dormimos. O álcool fez os seus efeitos e adormecemos relativamente depressa. Acordei cerca de duas horas depois. Ela não conseguia dormir sem ter a televisão e uma luz acesa e eu ouvi um diálogo qualquer. Um filme sobre imperadores romanos passava na caixa. Ela continuava adormecida.
E a raiva, a tristeza, tudo aquilo que eu não queria que acontecesse invadiu-me. Levantei-me, saí do conforto daquela cama, do corpo quente dela. Vesti-me, beijei-lhe a face e saí de casa. O meu carro estava estacionado ali perto. Sentado ao volante, as lágrimas caíam-me pela cara abaixo. Deixei-lhe o equivalente moderno do bilhetinho à mesa de cabeceira - mandei-lhe uma mensagem.
E assim se desmoronou aquele esplêndido castelo de cartas.
Etiquetas: short short story

1 Comments:
Olá,
Desculpe a minha ausência, mas o que importa é, que estou de volta.
Continuarei a comentar, é esta a minha maneira de ser:
Oferendo pensamentos de alguém, receba com carinho!
“O tempo não é um conceito empírico derivado de uma experiencia qualquer. O tempo é uma representação necessária que serve de fundamento a todas as intuições.
Kant
Beijinhos no coração
Conceição Bernardino
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