29.12.07

Como descansar em paz

Quero que saibas
Que a última página dá sempre direito a uma sequela
Quero que saibas
Que não aprendi nenhuma lição das que me quiseste ensinar
E que volto ao início, desarmado e ignorante
Quero que saibas
Que nada, nada, nada, será como dantes
E, no entanto
Tudo será como dantes
As ideias que tenho na cabeça
O peso que tenho no coração
Todas as coisas que devia ter feito há já muito tempo
Faço-as agora
E talvez não as faça
Porque eu continuo a ser eu
Porque nada disto faz sentido
E, no entanto
É a maneira como a terra tem girado
É a última luz que apagamos antes de dormirmos
É tudo e não é nada
Quero que saibas
Que te transmutaste em milhares de corpos
Que me aparecem por entre as brumas da noite
E os sorrisos que apontam para o quarto
Quero que saibas
Que há um fragmento de ti em cada uma dessas viagens sensoriais
Em cada manhã em que acordo com o corpo dormente
Em cada tarde em que me pergunto quem sou eu
Quero que saibas
Que à noite as brumas voltam e que também eu me desintegro
Entre a sombra e a escuridão, entre a Terra e o Inferno
E que todos os dias são mais um em que perco um pouco de mim mesmo
Quero que saibas
Que respirar é impossível
E que nada mais pode haver de real