17.8.04

Work in progress

Não, o que era preciso agora era o egoísmo, o que era preciso agora era o salve-se quem puder. Raquel… Raquel tinha sido uma associação de conveniência, não tivesse eu ilusões acerca disso ou talvez eu dissesse isso agora apenas por causa da traição, mas era o que eu sentia naquele momento, fosse pelo que fosse. Ainda assim, sabia que quando Raquel se acercava de mim não era aquilo que eu sentia com Paula ali ao pé de mim, sabia que o que Raquel sentia era diferente do que o que Paula sentia e na minha cabeça, no meu vogar entre a vigília e a inconsciência, nada subsistia que não fosse a cara de Sara, sorrindo para mim no meio da sua morte, sorrindo como que relembrando o nosso amor inocente, o nosso amor ao mesmo tempo divino e trágico, impossível porque uma força desconhecida e sarcástica assim o determinou. E, como naquele dia, em que me fui abaixo, em que não valia a pena continuar, em que nada valia a pena, eu soube, eu soube do fundo dos meus ossos, que nunca nada, nada, nada, valeria a pena, agora também eu sabia que nada seria igual, que nunca nada teria a mais remota semelhança com aquilo que eu e Sara tínhamos tido, que nunca nada seria igual.
Era bom, claro que era bom, era bom ter alguém que se preocupasse connosco, ter alguém que segurasse a nossa cabeça quando caíamos, ter alguém que nos limpasse as lá-grimas quando chorávamos, ter alguém era sempre bom. Mas sentir, sentir não. Sentir era outra coisa.


In Pós a Pó, draft version