27.12.05

Sussurros

Era uma tarde de segunda feira
Havia compromissos
O sol derretia o frio
Metia pena o facto
Do corpo dela flutuar por entre os astros
Tragicamente morta
Devido a um pequeno desentendimento
Eram três horas e não havia ninguém na rua
Excepto os vendedores de gelados
Feitos abutres pelo vento que passava
E nenhum deles conseguia explicar
Por que razão tinha ela
Escolhido ficar assim
Os ecos ressoavam por toda a cidade
Enquanto as estátuas caiam
Vergadas pelo peso dos segredos
Novas ideias brotavam como flores
(Mas ninguém as ouvia)
Do alto de um dos arranha-céus
Ele observava
Fumando pacientemente
Observava as supernovas e os fogos de artifício
Observava-a enquanto ela orbitava a Terra
E sabia
Sem outra segurança que não fosse a do saber
Que entre as ancas dela encontraria a redenção
Que pelos lábios dela acharia a salvação
Se não fosse ela estar tão fria e flutuar tão alto
Mais tarde, o sol teria de se pôr
E as ruas estariam novamente cheias
E ela desintegraria-se inevitalmente pela erosão do vácuo
Como sempre
Como em todas as longas solenidades
Esta só acabaria ao alvorecer